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Bilhetagem Eletrônica, Versão 4.0

26/11/2018 | Geral

Novos métodos de pagamento ampliam o leque de opções para passageiros e revolucionam o transporte público. A lista inclui cartões com tecnologia por aproximação, tíquetes com QR Code, aplicativos e até bilhetagem com dados do usuário alocados na “nuvem”

Quando a primeira versão de sistema de bilhetagem eletrônica chegou ao Brasil, no início dos anos 2000, quem poderia imaginar que, menos de duas décadas depois, seria considerado ultrapassado? Naquela época, os cartões de transporte previamente abastecidos com créditos que eram descontados a cada viagem, em equipamentos instalados dentro dos ônibus, revolucionaram os meios de pagamento do setor. A meta era universalizar o seu uso e reduzir o dinheiro a bordo.

Ninguém pode negar que a bilhetagem eletrônica, amplamente utilizada hoje em dia, trouxe muitos ganhos para o transporte público, entre eles a maior agilidade no embarque e a possibilidade de integração entre linhas. No entanto, de lá para cá, muita coisa mudou. A realidade do setor é outra, os passageiros apresentam perfis diversos e a tecnologia não para de evoluir. E o setor de transporte urbano precisa se adequar às necessidades operacionais e às expectativas do público. “Hoje, o usuário tem um poder de decisão muito maior. Se antes você conseguia determinar o uso de um cartão, agora é ele quem escolhe qual meio de transporte vai usar, quando e como. A mudança nos meios de pagamento precisa ser em torno da experiência do usuário, de forma a atraí-lo”, destaca o dire- {A} tor de produtos da Transdata, Rafael Teles.

 À primeira vista, em um cenário de perda crescente de demanda devido à crise econômica, aumentos de custos e falta de investimentos no setor, pode parecer estranho colocar os holofotes na tecnologia. Segundo dados do Anuário 2017-2018, da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), a queda diária foi de 3,6 milhões de passageiros em 2017. Entretanto, o impacto mais óbvio dos novos meios de pagamento — a redução das transações em dinheiro vivo — traz uma série de benefícios que ajudam a amenizar os problemas.

“A crise é até um incentivador, pois sabemos que o custo operacional do recebimento em dinheiro é extremamente oneroso, chega a ser superior ao investimento em tecnologia. E, ao oferecer comodidade, segurança e novas opções ao usuário, o setor pode recuperar parte da demanda perdida”, explica a diretora de Desenvolvimento de Negócios da Mastercard, Fernanda Caraballo.

O incentivo ao automóvel particular e o surgimento de novas formas de deslocamento nos últimos anos, a exemplo das bicicletas e do transporte particular por aplicativos, também não ajudaram. Diante de um passageiro cada vez mais exigente e cujo tempo está mais curto, é uma questão de sobrevivência, e não de luxo, que o transporte público acompanhe a evolução tecnológica. “Esse é um momento em que o setor está competindo com outros modais, e a tecnologia pode fortalecer essa competitividade. O assunto está sendo muito falado, o que demonstra uma tendência no sistema de transporte”, afirma o membro do conselho diretor da NTU, diretor geral da Urbi e diretor do consórcio HP-Ita, Edmundo de Carvalho Pinheiro.

Um leque de inovações

A inevitável evolução dos sistemas de pagamento no transporte público foi tema de uma das oficinas do Seminário Nacional NTU 2018 e também um dos destaques na Feira Lat.Bus & Transpúblico 2018, que apresentou várias novidades tecnológicas.

Uma das que mais chamaram atenção foi a de pagamento com cartões bancários, de crédito e débito. Os chamados cartões EMV (cujo padrão de segurança foi desenvolvido pelas empresas Europay, MasterCard e Visa — daí a sigla) possuem um chip inteligente que interage com a tecnologia contactless (sem contato) dos novos validadores instalados a bordo dos ônibus, permitindo o pagamento da tarifa com a simples aproximação do cartão, desde que esteja habilitado. O símbolo de internet sem fio nos aparelhos mostra se a tecnologia está disponível ou não no veículo, mas os ônibus seguem aceitando os cartões de transporte normalmente.

Um dos exemplos mais recentes de adoção da nova tecnologia contactless é a cidade de Brasília, que lançou, no último dia 19 de setembro, um novo cartão multiuso e validadores com tecnologia por aproximação em nove ônibus articulados da empresa Urbi, que opera em duas regiões do Distrito Federal. A previsão é que esse número chegue a 65 carros em outubro e 500 até o fim do ano.

Dessa forma, a capital federal se une a Rio de Janeiro (RJ), Curitiba (PR) e Jundiaí (SP). Até dezembro, Jundiaí terá 100% da sua frota de ônibus urbano operando no formato contactless e conquistará o título de primeira cidade da América Latina com essa tecnologia. Nas demais, o projeto de implantação está em curso. A implantação no Rio de Janeiro, em fase final, está sendo feita no metrô; já Curitiba está migrando do sistema de cartões de transporte com bandeira (vinculado ao setor, mas que permite o uso no comércio) para o sistema de cartões bancários. A meta, para ambas as capitais, é iniciar a operação até o fim deste ano.  

“Se a pessoa é funcionária de uma empresa, recebe o vale-transporte. Se é estudante ou idoso, recebe os créditos como benefício. Fica faltando o cidadão comum, que não entra em nenhuma faixa e precisa andar de ônibus. Não há uma solução definitiva, mas é preciso buscar sempre. Quanto mais portas você abrir, mais fácil ficará para o usuário”, ressalta o diretor comercial e acionista da Prodata, Leonardo Ceragioli.  

A tendência é mundial. As cidades que aceitam cartões bancários no transporte ou estão caminhando para isso incluem Nova Iorque, Boston, Las Vegas, Atenas e Londres. De acordo com dados da Mastercard, os pagamentos por aproximação aumentaram 344% no Brasil entre o segundo semestre de 2017 e o primeiro semestre deste ano. Em termos mundiais, a quantidade de transações é de uma para cada cinco.

O transporte público brasileiro, naturalmente, não poderia ficar de fora. Um setor que movimenta cerca de R$ 46,6 bilhões por ano, de acordo com informações da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), com 30% a 40% desse total sendo pago em dinheiro em algumas cidades, não pode ser ignorado. Tirar esse dinheiro de circulação significa menos riscos de assaltos, mais segurança para a população e até menos tempo gasto no embarque, já que não haverá necessidade de recebimento de valores e cálculo de trocos. Além disso, tecnologias como essa contribuem para reduzir os custos com a operação e podem ter benefícios extras.

A Empresa 1, por exemplo, aposta na variedade de funções dos validadores, disponibilizando itens como GPS, comunicação 4G, Wi-Fi para os passageiros e telemetria para extrair dados como modo de dirigir de cada motorista, gastos com combustíveis, linhas que mais consomem e tempo de viagem, entre outros. “A ideia é agregar serviços a essa tecnologia e dar retorno aos operadores e usuários. Sabemos que as cidades de hoje não serão as de amanhã, que mobilidade urbana está em constante mudança e precisa ser revolucionada”, frisa o gerente comercial da empresa, Milton Silva.

Como a tecnologia contactless é recente, ainda é preciso despertar a atenção das instituições financeiras para esse novo mercado. Os bancos têm pela frente a missão de emitir cartões com essa função, mesmo porque os pedidos dos clientes por essa funcionalidade devem dar um salto nos próximos anos. As principais bandeiras do país — Visa e Mastercard — estimam que o calendário de substituições seja intensificado a partir de 2019.

Acessórios “mágicos”

Mas se engana quem pensa que é preciso ter um cartão de banco para desfrutar dessa facilidade. A tecnologia contactless, também conhecida pela sigla NFC (Near Field Communication, que significa “comunicação por campo de proximidade”), pode estar presente em diversos aparelhos ou acessórios. O principal é o celular, que pode ser acionado como dispositivo para pagamentos com alguns cliques e o cadastramento de um cartão. Gigantes como a Samsung e a Apple já disponibilizam serviço de pagamentos móveis, assim como alguns bancos.

E os avanços vão além. Não só smartphones, mas também relógios, pulseiras, óculos e até mesmo anéis já estão sendo desenvolvidos com a tecnologia NFC. É um caminho sem volta, em prol da praticidade. Que, aliás, beneficia também o turismo.

De acordo com o diretor executivo de produtos da Visa, Marcelo Sarralha, com essas novas tecnologias o operador de transporte passa a se comportar como se fosse uma loja prestando um serviço. “A ideia é que o transporte se aproprie dessa tecnologia e comece a agregar inteligência no sistema, com tarifa dinâmica, descontos, premiações”, exemplifica.

Uma imagem vale uma viagem

Imagine a seguinte situação: você deseja pegar um ônibus, então retira o celular do bolso e, com alguns cliques, faz a compra de um código que serve como passagem. Essa possibilidade já existe. É o pagamento por meio de QR Code, um código de barras bidimensional que pode ser facilmente escaneado. Assim, para que o sistema funcione, basta que os ônibus sejam dotados de um leitor para QR Code.

Em Campinas (SP), a tecnologia foi implantada em setembro de 2017, inicialmente na compra dos tíquetes unitários nos terminais espalhados pela cidade. Cinco meses depois, a venda passou a ser feita também por meio de aplicativo, mediante cadastro para autorização dos débitos na conta do usuário. Nesse tipo de cobrança “desembarcada”, ou seja, feita antes de entrar no veículo, cada compra gera um bilhete — impresso, no terminal; e digital, no celular —, com prazo de validade. No município paulista, os tíquetes duram 30 dias.

O custo, para a empresa operadora, foi de R$ 1,5 mil em cada ônibus (valor que também corresponde à média de investimento em cada aparelho de tecnologia NFC, podendo variar conforme o dólar). A tecnologia foi adotada após ação do Ministério Público do Trabalho (MPT) contra o acúmulo de função por parte dos motoristas, que dirigiam e recebiam os pagamentos. Assim, além de resolver uma questão trabalhista, o uso de QR Code é mais um método que evita a circulação de dinheiro, dando mais segurança às empresas e à população, e ainda mais autonomia ao usuário esporádico, que pode adquirir os tíquetes somente quando precisar.

Enquanto a questão da sobrecarga do motorista é resolvida, alguns grupos podem levantar outra polêmica envolvendo tecnologias de meios de pagamento, a da ameaça de desemprego de cobradores. Sobre isso, Rafael Teles, da Transdata, é categórico: “Toda vez que a tecnologia evolui, ela muda o trabalho, não o extermina. Hoje existem pessoas fazendo análise das câmeras de monitoramento do transporte, uma função que não existia há 20 anos. A inovação movimenta toda uma indústria, que exige mão de obra. Não é possível que exista alguém que ache que trabalhar de 6 a 8 horas sentado de lado e com o sol batendo nas costas seja a melhor função. O avanço da tecnologia não deve ser freado, mas sim andar aliado com o desenvolvimento, para que as pessoas façam coisas que realmente só podem ser feitas por um ser humano”.

A alguns cliques do tíquete

Que o mundo tem sido cada vez mais tomado pelos smartphones, todos nós já percebemos. Basta dar uma volta na rua para notar os vários celulares ativos. De acordo com o estudo Digital Purchase and Internet Retailing Trends, da Euromonitor International, o mundo terá cerca de 4,5 bilhões de dispositivos móveis até 2020. Só no Brasil são previstos 250 milhões de celulares.

E se as pessoas já usam os celulares para acesso aos mais diversos sites e aplicativos para compras e pagamentos, o transporte não poderia ficar para trás. Pensando nisso, a Tacom desenvolveu a plataforma Kim, com serviços de recarga de cartões de transporte. É possível acessar por computador, celular, tablet ou ainda pelo aplicativo, disponível em Android e IOS, após cadastro feito no primeiro acesso. Os pagamentos podem ser feitos com cartões de crédito e débito, transferência bancária ou boleto.

“O sistema funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana. A plataforma possui conceito Omnichannel, que no universo do comércio eletrônico está ligado a proporcionar ao consumidor uma experiência integrada, por meio de diversos canais de compras”, explica o superintendente comercial da Tacom, Paulo Celso Dantas.

 

* Reportagem publicada na revista NTUrbano, edição Setembro/Outubro de 2018.

 

Tópicos
Brasil - transporte público - investimentos - bilhetagem eletrônica
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