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A qualificação do transporte por ônibus passa necessariamente por um sistema de gestão operacional

06/12/2018 | Geral

Ailton Brasiliense Pires*

Luiz Carlos Mantovani Néspoli*

 

Nos últimos anos, a partir do aguçamento da crise de mobilidade urbana em todo o país, temos assistido em encontros, seminários e congressos, com grande repercussão na mídia, um “enxoval” de soluções miraculosas para a mobilidade urbana, baseadas no avanço da tecnologia eletrônica.

Ao lado do fascínio que toda novidade provoca, em especial a tecnológica, não se ouve dos novos arautos da modernidade como essas “soluções” resolveriam, por exemplo, transportar diariamente 9 milhões de pessoas em ônibus e 8 milhões de pessoas no sistema metroferroviário de São Paulo, ou ainda como conseguiriam eliminar o congestionamento das cidades.

A modernidade, ao que parece, é um novo “nicho” de negócios destinado a oferecer um produto a uma determinada e seleta parte da população que, pelo deslumbramento que provoca, muito mais nos jovens é  claro, atrai a atenção da mídia. São, na verdade, shows e espetáculos destinados a distrair a plateia enquanto a realidade dura do dia a dia consome recursos e a saúde da população, e mais ainda dos seus extratos mais pobres.

O que se torna mais preocupante é quando autoridades públicas, ou formuladores de programas de governos, enaltecem demasiadamente os “aplicativos” como forma de solucionar os graves problemas de atendimento e de equacionamento financeiro do transporte público. No fim, o que parece é uma fuga do essencial – transportar milhões de pessoas com qualidade – para simplesmente desviar a atenção do necessário enfrentamento para resolver, de fato, a qualidade do transporte público.

Os sistemas metroferroviários em funcionamento há anos, por concepção, já incorporam toda a tecnologia necessária à prestação do serviço, e os mais modernos já trazem em seu bojo o “estado da arte”. Isso nunca ocorreu no sistema de transporte por ônibus e é isso, a nosso ver, a razão da falta de qualidade do transporte, cuja consequência mais perversa é a redução do número de passageiros a cada dia. Mas isso pode mudar para melhor.

A “quarta revolução industrial” que interessa já está disponível em bom nível na quase totalidade do transporte público por ônibus em todo o país, porque é inevitável a evolução tecnológica depois que qualquer coisa foi transformada em corrente elétrica e em ondas eletromagnéticas. No entanto, lamentavelmente, ainda não tiramos proveito de tudo o que está à nossa disposição.

 

Senão, vejamos.

A quantidade de tecnologia embarcada nos ônibus é incrível e já está presente em mais de 80% da frota nacional: GPS (que permite rastrear o sistema); telemetria (permite verificar o desempenho de vários aspectos operacionais do veículo); bilhetagem eletrônica (com variados graus de evolução, leitura de cartão, digital, facial, como também com possibilidade de uso de cartão de crédito); dispositivos de contagem nas portas (permitem uma medida de embarque e desembarque e “OD” da viagem com precisão do carregamento do ônibus em qualquer trecho); comunicação com o motorista diretamente da central; câmaras (pelo menos três: frontal, que permite ver tudo o que ocorre na via à frente do ônibus; na catraca; e na porta de saída, e às vezes na de entrada); Wi-Fi; painéis de comunicação interna, e outras miçangas de comunicação, etc., etc., etc...

Ainda há tecnologias prontas, testadas e em funcionamento em várias cidades do mundo, de acionamento remoto de semáforos em cruzamento. Há os que liberam a passagem do ônibus sempre de forma prioritária e os que liberam caso o ônibus precise passar para manter o “carrossel” ordenado, evitando sanfonamento e “buracos” na linha.

Com relação ao sistema de comunicação, os celulares já podem fazer o que você quiser, bastando que os dados sejam disponibilizados pelo Poder Público.

Tudo isso já está sendo registrado e pode ser assistido on-line nas centrais de controle operacionais. Os operadores têm sua central, e o poder público idem. O que ocorre é que o gestor público não sabe totalmente ainda como tirar proveito de tudo isso. Muitos gestores públicos ainda não tiraram todo o proveito que a tecnologia dispõe e continuam tratando essencialmente da fiscalização do contrato e não da gestão operacional. É aí que está a questão central.

Falta gestão operacional no sistema ônibus de superfície, o que hoje já é perfeitamente possível com a tecnologia existente. É também imprescindível, mas não suficiente, além de toda a tecnologia já presente, que haja uma “via permanente” para o sistema de ônibus. Sem uma via exclusiva para os ônibus, todo o sistema de gestão é de eficácia questionável.

A partir desta infraestrutura e da parafernália acima, é possível almejar um sistema operacional que garanta minimamente a pontualidade, regularidade de intervalo, confiabilidade no tempo de viagem, confiabilidade operacional e informações adequadas para a população na prestação do serviço, itens esses que são os atributos de qualidade apontados como prioritários pela população. Com estes dispositivos e processos de gestão capazes de perceber, reagir e intervir no sistema, acrescidos de formas de atenção ao usuário, tratando-o com a dignidade que merece, haverá esperança de uma mudança de padrão na prestação do serviço.

Por isso, a ANTP vem batendo nesta tecla, olhar o sistema de transporte por ônibus como ele deve ser olhado: como um sistema produtivo, submetido a processos de controle, monitoramento e gestão. Só assim colocaremos este “produto” no nível que ele jamais teve chance de ter.

 

 

 

AILTON BRASILIENSE PIRES Presidente da ANTP

 

 

LUIZ CARLOS MANTOVANI NÉSPOLI Superintendente da ANTP

 

Artigo publicado na Revista NTUrbano Edição 35 - setembro/outubro 2018

Tópicos
transporte público - NTU Urbano - NTU
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