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Inovação: o admirável mundo novo

29/05/2019 | Geral

Pensar fora da caixa, ousar, errar e corrigir são as pedidas do momento no transporte público coletivo. Para empresários e especialistas, mudança na cultura e adoção de novas soluções para velhos problemas podem salvar a mobilidade urbana brasileira

“Precisamos desapegar do passado vitorioso. As pessoas estão sempre olhando no retrovisor. Nós precisamos viver no futuro, trazer para hoje aquilo que nos falta”. Na análise da diretora executiva da HP Transportes Coletivos, Indiara Ferreira, o “passado vitorioso” é do transporte público coletivo. O “nós” faz referência a cada um dos envolvidos na oferta do serviço — de operadores a poder público. E “aquilo que nos falta” são soluções inovadoras para superar a profunda crise que assombra o setor e só piora com o passar dos anos.

Houve um tempo em que os usuários dependiam do transporte público. Não existiam concorrentes à altura dos metrôs, trens e, em especial, dos ônibus. Ou o cidadão comprava o próprio carro, ou pegava um táxi — e os dois meios exigiam, e ainda exigem, um certo poder aquisitivo. Nos últimos cinco anos, com a chegada da tecnologia dos aplicativos de transporte por demanda, o transporte público não apenas ganhou um concorrente, mas está enfrentando o começo do fim de uma era.

Agora, cabe ao setor responder à pergunta: será que o antídoto pode estar no próprio veneno? Para o presidente executivo da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Otávio Cunha, a resposta é sim. “A inovação e as novas tecnologias estão presentes em todas as áreas. Vejo isso como uma necessidade dos tempos atuais, de globalização, em que você precisa introduzir em sua atividade as técnicas da inovação para se manter competitivo naquilo que faz. Há toda uma tecnologia à disposição para facilitar o deslocamento das pessoas no sagrado direito de ir e vir, com uma resposta muito positiva, e isso mostra que os processos inovadores são fundamentais”, destaca.

A palavra inovação vem do latim innovatio, termo ligado à criação de algo novo, fora dos padrões existentes. Contudo, no mundo dos negócios, o conceito vai além. Estabelece a possibilidade de inovar mudando velhos hábitos, substituindo antigos métodos, e não apenas dando vida a uma novidade. Para tornar-se competitiva, uma empresa deve compreender o significado e a importância da inovação, para então inseri-la no “DNA” da organização.

Segundo o CEO da PontoGet Inovação, Vandré Holanda Sales, o processo de inovação deve seguir três etapas. A primeira prevê uma educação intraempreendedora para o desenvolvimento do mindset inovador, ou seja, todas as pessoas — especialmente as que atuam diretamente com estratégias — precisam ser sensibilizadas para uma mentalidade inovadora. Na segunda, a equipe se torna capaz de pensar, modelar e lançar produtos e negócios inovadores. Já a terceira etapa é a implantação da gestão da inovação contínua, quando a própria empresa consegue transferir essa metodologia internamente.

“São três estágios que não podem ser pulados, pois um permite que o outro seja alcançado. O trabalho da PontoGet é ajudar a implantar uma cultura da inovação de uma forma contínua dentro da empresa, para ajudá-la a sair do comportamento tradicional, conservador, de continuar o processo como ele sempre foi feito”, explica Vandré Holanda Sales.

Problemas geram oportunidades

Para iniciar ou colaborar com projetos inovadores, as chamadas startups são ideais. Elas podem ser uma iniciativa, um projeto ou uma empresa com serviços e produtos inovadores, a custos mais baixos e com processos mais ágeis. Startups também podem ser pequenas empresas que estão no estágio inicial de seu desenvolvimento, momento em que há muito risco e incerteza no negócio.

De acordo com a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), em 2012 havia aproximadamente 2.500 iniciativas desse tipo no País. Cinco anos depois, esse número saltou para 5 mil, e, hoje, já passa de 10 mil. Como nem todas as iniciativas possuem CNPJ e a atividade não se enquadra em uma classificação nacional de atividades econômicas (CNAE) específica, a entidade não consegue obter dados reais. A maior concentração de startups está no Sudeste e no Sul, e o segmento com mais empreendimentos desse tipo é a educação (7,68%). As soluções de logística e mobilidade urbana ocupam a 16ª posição no ranking.

“O aumento das startups pode ser atribuído a vários fatores, desde programas específicos de apoio ao desenvolvimento oferecido por entidades e empresas, até o surgimento e fortalecimento de incubadoras, aceleradoras e grupos de investidores, aliados a uma forte disseminação do conceito e práticas de desenvolvimento em ambientes acadêmicos e de empreendedorismo, por exemplo”, afirma o gestor de projetos da Economia Digital no Sebrae em Goiás, Francisco Lima Júnior, que atua com projetos de desenvolvimento setorial de tecnologia, inovação e startups desde 2009.

A tendência é que a inovação também prevaleça na mobilidade urbana. Isso porque a máxima de que “onde há problemas, há oportunidades de novos negócios” já se mostrou verdadeira. E o que não falta no setor são adversidades. Congestionamentos, falta de regularidade no serviço, além de tarifas altas que desagradam o bolso ao mesmo tempo que são insuficientes para bancar o sistema, são apenas alguns exemplos.

Aliás, não foi apenas o transporte privado por aplicativo que fez uma limonada com os limões do transporte público. Empresas que criam soluções de mobilidade urbana — as chamadas autotechs — estão entre as que mais crescem no Brasil. Entre elas é possível destacar startups como a Yellow, que fornece aluguel de bicicletas, e a Grin, de patinetes elétricos, disponibilizados sem estações específicas para retirada e devolução. Duas empresas de soluções de economia compartilhada (outra forte tendência) — que se uniram e deram origem ao grupo Grow —, que atendem a percursos menores e têm conquistado o público. Em algumas regiões de São Paulo, por exemplo, foi registrado um aumento de 60% nos aluguéis no fim do ano passado.

As operadoras do sistema de transporte público sabem que precisam se reinventar. Para tanto, não estão buscando apenas ideias “iluminadas”. Há, de fato, criações disruptivas, totalmente novas e que revolucionam o mundo, mas elas não são o único caminho. A inovação vem com muito trabalho duro, criatividade, mente aberta e conhecimento sobre a realidade dos envolvidos nos processos para, então, conceber formas melhores de fazer. “Os problemas são insumos para que novas soluções sejam criadas e melhorem efetivamente a experiência do usuário. Eles abrem oportunidades para as empresas aumentarem seu faturamento, sua eficiência e explorarem novos mercados dentro do próprio segmento”, ressalta Francisco Lima Júnior.

A revolução já começou

A queda crescente na demanda, que chegou a 9,5% somente em 2017, segundo levantamento da NTU, tem assustado empresários e operadores do sistema de transporte público. Diante da perda histórica que teve início em 2013, época das manifestações contra o aumento de 20 centavos na tarifa, a reação do setor foi completamente defensiva, relembra a diretora executiva da HP Transportes Coletivos, Indiara Ferreira.

“Entre 2014 e 2015, adotamos uma estratégia de sobrevivência, reduzindo custos, fazendo mais com menos. No ano seguinte, em 2016, nosso planejamento estratégico mostrou que esse não era o caminho. Porque, se em dois anos não há sinais de reversão, significa que está tudo errado”, conta Indiara. “Quando olhamos a redução de passageiros, a sensação que temos é de que estamos cavando a nossa própria cova”, completa.

Dessa forma, no mapa estratégico de 2016 a 2021, a empresa, que opera em Goiânia (GO) com 348 veículos e 1.048 funcionários responsáveis por 2.330 viagens por dia, definiu a meta de melhorar por meio de inovação e competitividade. Para isso, contratou, em 2017, a PontoGet Inovação. Foram oito meses de trabalho intenso e treinamento de gerentes e coordenadores sobre processos inovadores, mudando o mindset (mentalidade) da alta gestão. Nesse tempo, surgiram algumas ideias, avaliadas por uma banca.

Uma delas foi incubada por cinco meses até que o projeto estivesse bem formatado. Foi aí que nasceu uma iniciativa pioneira na América Latina: o CityBus 2.0, um transporte público coletivo sob demanda, lançado em 11 de fevereiro deste ano. “A princípio, a ideia era um aplicativo, mas nosso presidente achou melhor inovar ainda mais. Nosso contrato de concessão já dá espaço para serviços personalizados e complementares, então lançamos o produto”, detalha a diretora executiva da HP.

O chamado “Uber dos ônibus” está em fase de testes, com miniônibus de 14 lugares com ar-condicionado, Wi-Fi e TV. Mas a grande vantagem está na praticidade: pelo aplicativo, o passageiro escolhe os pontos de origem e destino, o assento, faz o pagamento (em dinheiro, cartões de crédito ou débito) e recebe a placa do veículo e o nome do motorista. O app indica a melhor rota e os tempos até o embarque e o destino. Os pontos de parada não são fixos, mas sim locais seguros e próximos ao passageiro — geralmente esquinas ou pontas de quadras. Ao embarcar, ele valida o QR Code recebido e pronto.

O CityBus 2.0 tem uma área de abrangência de 9km e pode ser usado para viagens em grupo, conforme solicitação. As tarifas variam, partindo de R$ 2,50 e ficando entre R$ 6,50 e R$ 7,50, em média. Até agora, 27 mil pessoas baixaram o aplicativo. Há um aumento de 20% a cada 10 dias, e o número só cresce. O relacionamento com o público também melhorou. A avaliação do projeto é de 4,9 em uma escala de zero a cinco, e os clientes têm feito sugestões nas redes sociais, com 100% de taxa de resposta.

Mas, apesar dos resultados favoráveis, projetos inovadores ainda esbarram em velhos obstáculos. Em horários de entrepico, a espera pelo CityBus 2.0 chega a até oito minutos, tempo que pode aumentar no auge do pico. Ou seja, falta priorizar o transporte público. E isso, assim como os investimentos em infraestrutura e a criação de fontes de financiamento além da tarifa, exige vontade política.

“Esse é o problema de jogar tudo nas costas dos operadores. Podemos ter os melhores ônibus, mas enquanto o poder público e toda a sociedade não entenderem que o transporte por ônibus é o eixo estruturante de uma mobilidade urbana sustentável, nada vai adiantar. Temos de pensar na mobilidade que queremos para daqui a cinco anos e agir hoje, pois, caso contrário, sabemos o caos que virá”, alerta Indiara Ferreira.

Uma tendência bem-vinda

A inovação é algo que ainda precisa “pegar” no transporte público. Mas o case da HP Transportes Coletivos não é o único. Em São Bernardo do Campo (SP), a informação de que 49% das pessoas que utilizam o transporte privado por aplicativo migraram do transporte público também incomodou. Por isso, a SBCTrans, operadora da região metropolitana de São Paulo, lançou, no final do ano passado, os testes com a uBUS, uma plataforma digital para transporte coletivo sob demanda.

Em Belo Horizonte, o Transfácil — consórcio que opera no município, formado por empresas responsáveis pelo sistema de bilhetagem — abriu as portas para a inovação há pouco mais de dois meses. A Sensemakers, consultoria especializada em mudança de mindset, foi chamada para atuar no projeto do Núcleo de Experiência do Cliente.

“Em um programa de desenvolvimento de mentalidade centrada no cliente como esse, atuamos em cinco dimensões: a voz do cliente, a cultura corporativa, as estratégias de experiência do cliente e do empregado e o design das experiências”, define a fundadora da Sensemakers e coordenadora do projeto, Denise Eler, que já realizou trabalhos na área de logística, mas está aplicando a abordagem do Design Thinking pela primeira vez em uma empresa de transporte público.

Foto: Divulgação

Tal abordagem busca soluções por meio de coleta de informações sobre a experiência real de todas as partes interessadas envolvidas. Isto é, o foco está em pessoas, na visão empática sobre as reais necessidades delas. Uma equipe multidisciplinar foi formada e, desde então, tem feito um trabalho de escuta por meio de workshops para entender os entraves e encontrar soluções inovadoras.

CEO da BVT Negócios & Inovação, Luma Boaventura, que integra a equipe liderada por Denise, diz que o segredo está em focar no cliente. “Nosso foco está no estudo da jornada do passageiro e de todos os envolvidos no trabalho do Transfácil. O workshop de design thinking inclui metodologias de design para entender e, literalmente, desenhar jornadas. Assim, realizamos oficinas com brinquedos para contar cenários, e sessões em grupo para traduzir problemas em soluções. Sempre com o objetivo de melhorar a experiência dos clientes externos e internos”, esclarece Luma.

Apesar de recente, o trabalho já traz resultados. Entre eles, execuções mais ágeis de projetos, otimização de reuniões, encaminhamento mais assertivo e dinâmico de projetos que ainda estavam em planos — como aplicativos e portais—, lançamento de produtos e contato mais próximo com os passageiros, que, segundo prevê a “cartilha de boas maneiras da inovação”, não devem mais ser considerados meros usuários.

“As operadoras precisam, coletivamente, parar de enxergar pessoas que utilizam o transporte público como usuários e vê-las como clientes que merecem uma forma diferenciada de tratamento. Não é disponibilizar um serviço de transporte, mas sim oferecer uma experiência de mobilidade que resolva ou alivie as dores desse público, entregando os ganhos esperados pela população”, observa Vandré Holanda Sales.

Fly Thinking

Outra novidade recente lançada pelo setor foi o “Espaço de Inovação Denisar Arneiro: Sala Fly Thinking”. Inaugurada em dezembro de 2018 no térreo do edifício-sede da Confederação Nacional do Transporte (CNT), em Brasília, a sala foi construída no conceito smart room. São 390m² distribuídos em um ambiente moderno e versátil, que permite a ocupação de diversas maneiras, seja em salas isoladas acusticamente ou em um espaço para conferências, para um total de até 100 pessoas.

Foto: SEST SENAT Divulgação

Coordenada pelo Instituto de Transporte e Logística (ITL) da CNT, a Sala Fly Thinking pode ser usada presencialmente ou à distância para o debate de assuntos relacionados ao transporte, desde gestão e logística até inovação e tecnologia.

O nome, que traduz o conceito de “pensar de forma inteligente, atualizada e inovadora”, combina perfeitamente com a estrutura, composta por duas salas com cadeiras universitárias dotadas de prancheta, duas salas com mesas compartilhadas para interações em grupo e uma sala de conferências. O mobiliário é leve, para permitir a integração dos ambientes, e todos os espaços possuem internet sem fio com alta velocidade, paredes revestidas com lousas de vidro branco, caixas para pontos elétricos e rede lógica, e persianas blackout automatizadas. Há, ainda, ambiente para coffee break.

“A sala foi pensada para estimular o aprendizado de adultos, a troca de ideias e de experiências. Antes, tínhamos salas, mas no estilo mais ‘quadrado’ de sala de aula. Agora, conseguimos concentrar para que todas as atividades ligadas ao sistema CNT sejam feitas no mesmo lugar. E ela vem sendo usada todos os dias, para reuniões, entrevistas, cursos, treinamentos, dinâmicas e videoconferências”, revela a bibliotecária do ITL, Teila Carvalho, responsável pelas reservas dos espaços e pela biblioteca do Instituto.

Um caminho sem volta

A inovação está aí, e os envolvidos no transporte público têm a opção de buscar as oportunidades em vez de lamentar a perda de receita. O presidente executivo da NTU, Otávio Cunha, reconhece que o setor ainda é muito conservador em relação à “forma de fazer”, mas entende que a modernização e o pensamento inovador são fundamentais para que o transporte saia da crise profunda em que se encontra.

E é por acreditar nisso que a NTU lança, no início de maio, o Coletivo – Programa de Inovação em Mobilidade Urbana, por meio do qual a Associação estabelecerá uma iniciativa voltada para estimular o empreendedorismo e fortalecer projetos e até mesmo startups voltadas para o transporte público. Para isso, serão oferecidos estrutura física e apoio gerencial e técnico aos projetos selecionados, como um autêntico “hub” de inovação.

A NTU pretende selecionar e abrigar ideias que podem ou não se materializar em projetos. “Temos consciência de que o erro e o recomeço são próprios da inovação. Estamos prontos para fracassos e acertos. A expectativa é colher bons frutos dentro de um ano por meio desse programa, que será permanente. Queremos ser um polo de atração de meios e investidores dispostos a colocar recursos em ideias inovadoras”, declara Otávio Cunha, otimista.

Maratona por soluções

Goiânia recebeu, de 29 a 31 de março, a primeira edição do Hackinnovation Mobinova. Com o tema “Inovação para mobilidade coletiva e sustentável”, o evento teve como objetivo a atração e o engajamento de profissionais do setor e empreendedores interessados em pensar, projetar e executar soluções inovadoras para uma mobilidade urbana sustentável. O hackinnovation, assim como os hackathons, é uma maratona de desenvolvimento de ideias para a busca de soluções sobre determinado tema.

Leia mais sobre o Hackinnovation Mobinova.

 

Matéria publicada na Revista NTUrbano Ed. 38 Março/Abril de 2019.

 

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