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Urbanismo tático: a reconfiguração das cidades brasileiras

08/08/2019 | Geral

Projetos de transformação dos espaços públicos impactam positivamente na qualidade de vida da população. Especialistas falam sobre a importância de inserir o transporte público coletivo nesse conceito 

Dar um novo sentido para os espaços públicos de convivência é o grande desafio do urbanismo tático. Apesar de recente no Brasil, o conceito está ganhando maior visibilidade com projetos que transformam as cidades e geram ambientes mais agradáveis e receptivos para as pessoas. O novo lugar é reflexo de um planejamento em longo prazo que envolve intervenções rápidas e baratas para colocar em prática ideias criativas, incentivar a cidadania e garantir a reapropriação dos espaços pelos principais usuários das cidades: as pessoas.

O objetivo central das mudanças consiste na apresentação de projetos temporários que evidenciem o potencial do local. Com a validação, por meio de análises e pesquisas durante a fase provisória, as intervenções podem ser transformadas em alterações fixas nas cidades. As ações envolvem pinturas, desenhos no chão, minipraças, calçadas ampliadas e outras opções que ofereçam lazer e melhoria da segurança viária para quem utiliza os espaços públicos.

Para André Turbay, urbanista e mestre em Gestão Urbana, a iniciativa pode ser considerada como um exercício social por envolver a participação ativa da sociedade, algo que é estratégico para a democratização das tomadas de decisão. “É importante observar que o urbanismo tático pode ser exercido como manifestações sociais independentes, mas também de forma integrada com políticas públicas como situação ideal. Além disso, os projetos proporcionam a promoção da educação por meio de boas práticas indutoras de um ambiente urbano mais sustentável”, explica.

Benefícios para toda a sociedade

A reconfiguração proposta pelo urbanismo tático muda a rotina de todas as pessoas que circulam diariamente pelas intervenções e têm a oportunidade de visitar novos espaços nos velhos lugares. Os projetos são inciativas que revolucionam as cidades, com baixo custo de investimento, e propiciam melhor qualidade de vida para os brasileiros.

O urbanismo tático é uma colaboração entre o poder público, a população e a iniciativa privada. Além de dar cor para as cidades, motiva a população a repensar seus hábitos e olhar com mais atenção para os detalhes diários e a necessidade do investimento em cidades mais humanas.

Quando o assunto é a mobilidade das cidades brasileiras, André Turbay aponta a promoção do acesso à cidade como o maior benefício social da iniciativa, associada à mobilidade urbana. “Temos modelos diferentes de intervenções que exemplificam a possibilidade do acesso de toda a população, seja por uma intervenção direcionada às adaptações físicas que favoreçam os deslocamentos com maior segurança viária, seja pela delimitação de áreas seguras para pedestres ou outras práticas da mobilidade ativa e micromobilidade”, explica o especialista.

Como fica o transporte público?

O transporte coletivo urbano é grande contribuinte quando se fala em cidades mais sustentáveis, com menos carros nas ruas e, consequentemente, um ambiente mais limpo. No entanto, o setor precisa estar inserido no novo modelo das cidades. Para quem pensa que o transporte público não dialoga com o urbanismo tático, o pioneirismo do conceito no Brasil está relacionado a ações de priorização do transporte coletivo urbano.

A Jornada Brasileira ‘Na Cidade, Sem Meu Carro’ é uma iniciativa do Instituto MDT para priorizar meios de transporte coletivos e sustentáveis nas cidades. O projeto é apontado como uma atitude precursora para os novos espaços de convivência pelo urbanista e diretor nacional do instituto, Nazareno Affonso. “Nosso objetivo é mostrar que a cidade pode funcionar sem carro, por intermédio de análise, entrevistas e estudos sobre o impacto das mudanças. Estamos em um bom momento para introduzir o novo conceito e mostrar os benefícios que ele garante para a mobilidade urbana”, aponta.

Ele reforça a necessidade da democratização dos espaços por meio de mudanças como a ampliação de faixas exclusivas e a proibição de estacionamento em vias públicas. “A política de estacionamento, alinhada com a priorização do transporte coletivo, é item básico que melhora muito o contexto, mas é possível pensar em coisa maior. Para ter resultado mesmo é preciso mudar o conceito na cabeça das pessoas, para que elas entendam que o transporte público também faz parte do urbanismo tático”, defende Nazareno.

No planejamento do transporte coletivo dentro do conceito de urbanismo tático, o urbanista André Turbay também defende a inclusão de medidas que envolvam o setor. “O urbanismo tático está mais associado à política, planejamento e desenho da microescala, onde as intervenções promotoras do acesso aos terminais e paradas de ônibus, por determinar melhor comodidade e segurança, potencializariam o uso do transporte público e a satisfação dos passageiros”, explica.

De acordo com o especialista, quem usa o transporte coletivo pode ser altamente beneficiado com a promoção de melhor segurança viária e pública, melhor acesso às cidades e maior engajamento da sociedade. “Para o setor de transporte, o retorno estaria no maior cuidado com os clientes nas estruturas de acesso aos terminais e no entorno das paradas de ônibus que, pelos efeitos práticos, de percepção de cuidado e pertencimento, poderia contribuir com a recuperação do número de usuários, fator estratégico para o setor”, afirma Turbay.

O automóvel é um grande desafio

Mesmo com todos os benefícios das medidas, a missão de fazer a diferença nas cidades não é uma tarefa fácil, principalmente quando existe uma priorização do transporte individual, como explica o urbanista Nazareno Affonso. Segundo ele, existe uma grande desigualdade entre a priorização do carro e outros meios de transporte. “A mobilidade urbana foi capturada pelo automóvel, mesmo com o transporte público tendo um papel importante no desenvolvimento das cidades. É um dever nosso defender cidades mais democráticas. A nossa bandeira é democratizar o espaço público, priorizando o transporte coletivo urbano, uso da bicicleta e trajetos a pé, por exemplo”, argumenta.

Para Nazareno, o urbanismo tático é um conceito que surgiu para ensinar a sociedade sobre o aproveitamento do espaço público. “É necessário mostrar para a população que ela pode ter a cidade de outra forma e que o espaço deve ser ocupado com equidade. As cidades são muito melhores sem carro, e é um desafio reduzir o vício de utilização do automóvel”, aponta o urbanista.

Gestão Urbana

No Brasil, o urbanismo tático está presente em algumas capitais brasileiras. Fortaleza (CE) e São Paulo (SP) se destacam com projetos de requalificação dos espaços. Os bairros Cidade 2000, na capital cearense, e Santana, na Zona Norte da capital paulista, foram os primeiros a receber mudanças que transformaram os locais e a experiência das pessoas.

Em São Paulo, as iniciativas podem ser vistas em diversas partes da cidade. As unidades do Largo de São Francisco, Praça Ouvidor Pacheco e Silva, Largo do Paissandu e Avenida São João foram as primeiras a serem implantadas. Após um ano das primeiras unidades, mais três foram desenvolvidas no centro da cidade, no Largo de São Bento, Rua Galvão Bueno e Largo General Osório.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, o Programa Centro Aberto tem como objetivo a transformação e ampliação do uso de espaços públicos subutilizados ou mesmo cercados, por meio de intervenções de pequena escala, ao modificar estruturas preexistentes permitindo atividades diversas. De acordo com a pasta, o processo é capaz de promover a melhoria na percepção de segurança e o reforço no sentido de pertencimento e identificação da população com o Centro.

A capital paulista também é referência de Parklets, espaços de convivência criados para ocupar o lugar de automóveis estacionados em vias públicas. Os projetos ampliam a oferta de espaços públicos, visando repensar o uso de locais comuns, que muitas vezes seriam ocupados por carros, por exemplo. A implantação acontecia apenas no centro econômico-cultural da cidade, mas, segundo a prefeitura, já foram instalados Parklets municipais e capacitadas subcomissões em cada subprefeitura para análise e aprovação, possibilitando a descentralização e difusão da política para outras regiões da cidade.

Ainda de acordo com a prefeitura, é certo o investimento na continuidade da política e no seu desenvolvimento, garantindo ganhos aos munícipes e vislumbrando novas políticas que, assim como os Parklets, incentivem a melhor apropriação do espaço público por meio da renovação de suas formas de uso.

Cidade da gente

A capital cearense também está avançando quando o assunto é urbanismo tático. Com a primeira intervenção em 2017, a cidade já conta com outras iniciativas. O engenheiro de transportes da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos da Prefeitura de Fortaleza, Renan Carioca, conta que o espaço público pouco aproveitado e com grande potencial motivou o primeiro projeto. “O que nos levou a iniciar o trabalho foi o aprendizado. Era um projeto rápido, de baixo custo e feito em parceria com a população para dar um novo significado para aquele espaço”, fala.

A primeira tentativa deu certo e desencadeou outras intervenções. O projeto Cidade da Gente, popularmente chamado de Dragão do Mar por estar localizado próximo ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, representa a segunda e maior iniciativa de urbanismo tático na capital. No entanto, o engenheiro Renan Carioca afirma que o engajamento da população tem sido um grande desafio. “O projeto depende de uma interação forte com as pessoas e não é tão fácil colocar na cabeça delas a importância dos projetos. O maior desafio está na transição da mudança de um conceito mais egoísta para o aproveitamento do espaço público com qualidade”, relata.

A inclusão do transporte público também é uma preocupação da Prefeitura de Fortaleza para que as áreas sejam mais bem contempladas. “É importante entender a demanda do transporte público e a necessidade da população. O principal objetivo é fornecer espaços melhores, pensar em locais de esperas mais atrativos e confortáveis e priorizar o transporte público e as pessoas”, explica Carioca.

Quanto aos custos, o valor é variável. O engenheiro cita como exemplo uma intervenção recente em um espaço de 4 mil metros que teve investimento entre 45 e 50 mil reais. Ainda de acordo com Renan Carioca, o excelente custo benefício é motivação para que novos projetos sejam colocados em prática. “A expansão acontece diariamente com pesquisas constantes e investigação de áreas com maior necessidade, acompanhando os dados de potencial e as demandas da população para entender o que melhor atende a região. A nossa expectativa é de que novos projetos apareçam em breve”, finaliza.

Matéria publicada na Revista NTUrbano Ed. 39 Maio/Junho de 2019

 

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