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Mobilidade inteligente, cidades inteligentes

08/10/2019 | Geral

A modernização das cidades depende de novas formas de pensar e realizar a locomoção das pessoas

A integração de diferentes tecnologias no dia a dia das cidades faz parte da revolução das sociedades conectadas. As chamadas smart cities (cidades inteligentes) são a tendência mundo afora, com avanços para melhorar a qualidade de vida da população e o meio ambiente como um todo.

Uma smart city é uma cidade conectada com tecnologias e infraestrutura que se relacionam entre si, geridas de uma maneira integrada, de modo a produzir um impacto positivo na vida do cidadão. As soluções tecnológicas para as cidades melhoram a qualidade de vida por meio da interligação de dimensões como infraestrutura física, acesso à internet, redução dos impactos ambientais das atividades econômicas e mobilidade urbana eficiente e inovadora para o deslocamento das pessoas.

De acordo com o Connected Smart Cities, plataforma usada para o debate de ideias sobre cidades inteligentes, a discussão sobre serviços mais eficientes e sustentáveis pauta-se pela construção de alguns princípios norteadores, tais como: integração, inovação, colaboração, transparência e foco no cidadão. “Esses conceitos devem efetivamente mudar indicadores dentro das cidades, seja a melhoria do transporte urbano, da segurança pública, saúde ou governança, por exemplo. A cidade inteligente tem que crescer integrada não só na tecnologia, mas também na gestão”, afirma Tiago Chagas Faierstein, líder do projeto Cidades Inteligentes da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Segundo o Ranking Connected Smart Cities 2019, que tem o objetivo de mapear as cidades com maior potencial de desenvolvimento no Brasil por meio de indicadores que retratam inteligência, conexão e sustentabilidade, Campinas (SP) é a cidade que apresenta os melhores índices do país, seguida de São Paulo (SP) e Curitiba (PR). A pesquisa também relaciona as melhores cidades em diferentes categorias. Curitiba lidera no quesito urbanismo, com Santos (SP) e Maringá (PR) no segundo e terceiro lugares, respectivamente. Na categoria meio ambiente, Santos ficou na primeira posição, Limeira (SP) em segundo e Niterói (RJ) na terceira colocação. Já na categoria mobilidade e acessibilidade, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro são as melhores colocadas.  

São Paulo se destaca no ranking de mobilidade inteligente por oferecer serviços inovadores, como o das patinetes elétricas compartilhadas, que auxiliam na micromobilidade da população. A “febre” das patinetes inundou a cidade e gerou intenso debate entre a Prefeitura de São Paulo e as empresas que oferecem o serviço, levando o governo a estabelecer regras como a proibição do veículo pelas calçadas e velocidade máxima de 20 km/h. As patinetes dividem o lugar com as bicicletas na malha cicloviária paulista, que tem aproximadamente 500 km de ciclofaixas e ciclovias.

No caso da rede de transporte público, a inovação está presente em vários aspectos, como na bilhetagem eletrônica. Com mais de 10 milhões de embarques por dia, os passageiros que pagam as tarifas dos ônibus com o Bilhete Único em breve poderão contar com o pagamento por meio de cartão de crédito, débito ou mesmo celulares. A iniciativa já está sendo testada em 200 ônibus de 12 linhas paulistas.

Para auxiliar a mobilidade das pessoas com autismo, surdo-cegueira e deficiência física severa, a SPTrans disponibiliza o serviço Atende+, uma modalidade de transporte porta a porta oferecido de forma gratuita para clientes cadastrados. O transporte é operado pelas empresas de ônibus e também por cooperativas de táxis acessíveis que rodam cerca de um milhão de quilômetros por mês atendendo todos os dias.

Ainda na mobilidade coletiva, os contratos do transporte coletivo municipal por ônibus foram assinados em setembro, após seis anos de tramitação, com o intuito de reorganizar o sistema de transporte público na Capital e beneficiar os passageiros ao eliminar a sobreposição de linhas, reduzir intervalos entre os veículos, tornar as viagens mais rápidas e confortáveis, além de proporcionar maior confiabilidade ao sistema e permitir a modernização da frota.

No caso do Rio de Janeiro, a cidade também vem adotando medidas para melhorar o deslocamento da população, como a implantação de uma extensa rede cicloviária com mais de 450 km e 12 corredores de vias prioritárias para os ônibus, com mais quatro em estudo para implantação. Segundo o Plano Diretor de Transporte Urbano de 2012, mais de 70% de todas as viagens no modo motorizado realizadas no Rio de Janeiro são feitas pelo transporte público, o que diminui o fluxo de carros pela cidade.

Inúmeros exemplos

Os avanços tecnológicos dentro das cidades inteligentes também passam pelos meios que as pessoas utilizam para se locomover. A integração entre os diferentes modais é fundamental para a revolução na mobilidade mundial. A smart mobility (mobilidade inteligente) engloba os tradicionais e novos modos de transporte, a infraestrutura para que a mobilidade aconteça e os investimentos necessários para as cidades evoluírem.

Existem inúmeros exemplos de como as empresas estão avançando na criação de tecnologias para melhorar o fluxo das pessoas. A mobilidade aérea, por exemplo, já conta com plataforma de reserva de voos de helicóptero compartilhado sob demanda.

No mercado também há carros movidos a eletricidade e a gás natural; aplicativos com detalhes sobre rotas, congestionamentos e acidentes nas estradas; tecnologias de videomonitoramento para auxiliar no gerenciamento inteligente de tráfego no trânsito; iluminação inteligente que funciona de acordo com o fluxo do trânsito, evitando possíveis acidentes com veículos e pedestres; sistema de transporte público compartilhado por meio de vans e drones que ajudam hospitais na locomoção de órgãos humanos para serem doados; entre outros. Sem contar as bicicletas e patinetes compartilhadas que ganharam o mundo nos últimos anos, além dos ônibus elétricos que começam a ser utilizados nas vias, promovendo a sustentabilidade e ajudando a diminuir as emissões de gases nocivos na atmosfera.

No Brasil, a mobilidade urbana elétrica está sendo implantada aos poucos, como também ocorre na maioria dos países. Em Brasília, o primeiro ônibus elétrico começou a rodar em 2018 e existe a expectativa de que a capital se torne a cidade com maior número de carregadores elétricos veiculares do país. Curitiba, por sua vez, iniciou um projeto de ônibus a gás natural este ano. “Uma questão muito importante na smart mobility, principalmente falando dos veículos elétricos, é a questão da infraestrutura, o carregamento das baterias, o compartilhamento de veículos e a redução de frotas, o que ajuda a melhorar a fluidez do trânsito”, destaca Tiago Chagas da ABDI.

O diretor Técnico da Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbanos (NTU), André Dantas, destaca que se houver uma política de longo prazo do governo federal será possível o país evoluir, mas faz ponderações sobre essas novas tecnologias. Ele lembra que o Brasil tem problemas básicos como a falta de priorização para os ônibus nas vias e o custo da energia brasileira, por exemplo.

“Fala-se em comprar veículos elétricos e esquece-se que nós mal conseguimos fazer o investimento em iniciativas simples como a implementação de faixas exclusivas. Nós estamos discutindo esse assunto de forma superficial e ignorando a nossa realidade de país em desenvolvimento”, explica.

Integração entre modais

Essa nova escalada tecnológica na mobilidade urbana, atualmente em curso nos principais países do mundo, começa a sinalizar para gestores e planejadores que a locomoção por diferentes modais é uma tendência forte, que avança, mas precisa de organização.

A maioria dos novos modais funciona de forma individualizada e independente, ou seja, competindo entre si. Transportes por aplicativo competem com o ônibus, o metrô com o carro particular e assim por diante. A lógica individual desses serviços acaba transformando-se em uma espiral viciosa com perda para todos.

A integração entre os diferentes transportes urbanos pode ser a saída para racionalizar o sistema e oferecer ao usuário a melhor solução de transporte nas vias com base em suas necessidades: vários países têm evoluído para esse novo modelo organizacional, conhecido como Mobility as a Service (MaaS) — em português, Mobilidade como Serviço.

A mobilidade como serviço funciona como um sistema de integração físico-temporal dos vários modais, que inclui a oferta de serviços de transportes urbanos a partir da promoção da acessibilidade ao nível do usuário. O sistema MaaS permite ainda o planejamento da gestão e comercialização do serviço de transporte. “Em vez de se ter uma relação direta entre usuário e operador (de cada serviço de transporte), a ideia é que exista um ou mais operadores que concentram dentro de si pacotes de serviços de transporte (com vários modais) já precificados”, explica o professor Matheus Sousa Oliveira, do Programa de Engenharia de Transportes/Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).

A ideia do MaaS é que cada modal se concentre nos eixos onde é mais eficiente como transporte para dar a melhor oferta de valor ao usuário e melhorar, consequentemente, a remuneração pelo serviço prestado. As patinetes, por exemplo, são ágeis para deslocamentos de curta distância e baixa capacidade, ou seja, funcionam para a micromobilidade. Seriam ideais para o trajeto da parada de ônibus ao destino final ou da origem do deslocamento até a estação de trem mais próxima. O objetivo é que, em determinadas condições, o usuário tenha facilidades e vantagens na aquisição dos serviços, sendo favorecido ainda com a integração da infraestrutura, como faixas exclusivas para ônibus e ciclovias, podendo assim combinar mais de um meio de transporte para chegar ao seu destino final.

No estudo do professor Matheus Oliveira sobre Inovação na Mobilidade Urbana e o Futuro do Transporte Público, com foco nos desafios e oportunidades na construção de um sistema de mobilidade como serviço no Brasil, apresentado no Seminário da NTU, ele explica que o sistema MaaS funciona por intermédio de dois agentes principais: o agente agregador do serviço de transportes e o agente corretor.

O agregador conecta todos os aplicativos dos diferentes modais em um só sistema. Assim, em uma única interface o usuário terá todas as informações que precisa sobre os transportes. O app oferecerá as melhores opções de viagem a partir da integração dos serviços. Além de informar e planejar os trajetos do usuário, a tecnologia irá ajudar na gestão racionalizada do serviço. Com as informações coletadas das viagens, os operadores poderão destinar o tamanho da frota necessária para atender aos passageiros e também flexibilizar sistemas mais rígidos, como as atuais linhas de ônibus.

O agente corretor funciona como os serviços de tecnologia de telefonia móvel. O sistema disponibiliza vários planos de acordo com a necessidade do usuário. Se ele usa mais o ônibus em detrimento dos outros modais, o passageiro pode ter um plano mais barato, diferente de quem usa vários transportes individuais e que precisaria de um plano mais robusto — com preço maior. Então, o objetivo do corretor é definir e comercializar pacotes de serviços personalizados para cada tipo de usuário.

Essa unificação entre modais é vista como essencial para Tiago Chagas. “Os transportes se complementam. Eles têm que trabalhar juntos e integrados. O transporte individual tem que estar integrado ao ônibus, metrô, VLT. Eu acho que a cidade tem que ter esses modais conversando e planejados de acordo com a necessidade de cada região para que ela tenha uma fluidez de trânsito e de pessoas como um todo”, afirma.

O conceito de mobilidade como um serviço é recente e ainda está sendo discutido ao redor do mundo. Como o objetivo é conectar modais que funcionam de forma independente, o desenvolvimento de novas estratégias de serviço depende de muita interlocução entre os agentes e operadores de transportes. Todavia, o MaaS já está em estágio inicial em boa parte das cidades que já têm pelo menos um transporte não tradicional ou por demanda, faltando, portando, a unificação dos serviços, como explica o professor Matheus. “Quando eles estão desintegrados, quando não existe conversa entre Uber e ônibus, patinete e metrô, entregas e todos os serviços de transporte da cidade, a gente está no estágio zero, onde só existem os custos desse efeito perverso de canibalização do sistema de transporte”, enfatiza.

MaaS pelo mundo

Na Finlândia a mobilidade como serviço já é realidade. Um projeto desenvolvido pela startup MaaS Global tem chamado a atenção por ser pioneiro no serviço móvel totalmente inclusivo do mundo. Na cidade de Helsinque, o aplicativo Whim dá acesso instantâneo a diferentes meios de transporte como táxis, ônibus, trens e bicicletas compartilhadas. Com diferentes tipos de pacotes, o usuário tem a opção de escolher o que melhor atende às suas necessidades.

Aqui no Brasil, o compartilhamento de patinetes elétricas, bicicletas e transportes sob demanda já funciona em várias cidades, mas de maneira singular. No Rio de Janeiro existe um projeto embrionário com o novo cartão do MetrôRio. Além de o usuário fazer a recarga on-line ou pelo aplicativo MetrôFácil para as viagens, o cartão oferece descontos em viagens feitas de Uber e no aluguel de bicicletas compartilhadas.

Para ter descontos no Uber é necessário fazer uma recarga no valor mínimo de R$ 25,00. O código promocional, enviado por e-mail e que vale por uma semana, dá desconto de 30% em cada viagem, limitado ao valor de R$ 10,00, para corridas que começam ou terminam em uma das 41 estações do MetrôRio. Os clientes que quiserem completar a viagem de bicicleta também têm o benefício com o uso do cartão do MetrôRio. O Bike Rio, operado pela Tembici, pode ser usado após o cadastro no site ou no aplicativo “Bike Itaú”. A partir daí, o cartão poderá ser usado para liberar bicicletas nas estações de forma simples e segura, sem o uso do celular. 

Para o diretor da NTU, André Dantas, o setor de transporte público tem um mercado forte para avançar nas novas tecnologias. “Eu não acho que estejamos muito longe de fazer testes similares, porque nós temos mercado de mobilidade muito pujante, importante e que diferentemente de outros países é liderado pela iniciativa privada, com alta capacitação tecnológica. Na hora em que as condições apropriadas acontecerem realmente, esses operadores irão atuar nesse sentido”, afirma.

André conclui destacando a falta de priorização para o transporte coletivo nas vias pelo Brasil, o que pode comprometer o avanço das novas tecnologias. “O que falta no meu entendimento é que nós, como sociedade, exijamos que a devida prioridade seja dada à mobilidade coletiva. Muitas vezes investimos em viadutos, túneis, rodovias, aumentando a capacidade viária e ignoramos os investimentos em transporte público”.

Regulação e gestão

A entrada de novos modelos de mobilidade urbana é uma tendência que deve crescer mundo afora. Não se sabe quais tecnologias irão aparecer no futuro, mas o importante é preparar o sistema de transporte para ser capaz de absorvê-las e integrá-las de forma que haja equilíbrio e melhora na oferta do serviço. Para isso, a regulamentação torna-se fundamental para a organização dos diferentes modais.

O professor Matheus afirma que é importante entender o funcionamento do sistema de transportes, além dos processos e gargalos que ainda existem. “Para eu desenhar uma visão de futuro de como o MaaS pode se integrar e responder às minhas necessidades, aquilo que eu espero que seja mobilidade do futuro para minha cidade, é preciso ter clareza do sistema de gestão e coleta de dados sobre mobilidade. Acho que, de uma forma geral, esses são pontos onde já existem alguma clareza do que vai ser importante para a regulamentação. Mas ainda está em fase de experimentação”.

O papel do governo será imprescindível para a definição de leis e possíveis investimentos na área, como explica Tiago Chagas, do projeto Cidades Inteligentes da ABDI. “Faltam sim políticas públicas, mas elas virão. Ainda falta capacitação, trazer conhecimento e experiências do que acontece lá fora para os nossos gestores. Para os empresários falta informação das vantagens de uso dessas tecnologias, como elas podem dar uma economicidade maior nos processos, nas operações, e como isso pode trazer benefícios mútuos”.   

Matéria publicada na Revista NTUrbano Ed. 40 Julho/Agosto de 2019

 

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