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Em tempos de crise a melhor solução é intensificar o Transporte Coletivo, não restringir

29/04/2020 | Artigo

Roberto Sganzerla é especialista em Marketing de Transportes e Mobilidade Urbana

Penso em escrever este artigo desde quando ouvi a decisão absurda dos prefeitos do ABC e de cidades de Santa Catarina de suspender o transporte coletivo na região, como medida de prevenção ao coronavírus, mesmo com fortes críticas do governo federal, incluindo a do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que diz que é importante garantir o ir e vir de profissionais de áreas essenciais.

À guisa de introdução gostaria de dizer que nessa semana que passou me dediquei, juntamente com minhas equipes, à produção de uma série de campanhas informativas, criando um vasto pacote de peças publicitárias personalizadas para várias cidades e regiões metropolitanas, para veiculação dentro dos ônibus, terminais, sites e mídias sociais, lojas de atendimento ao cliente, etc., visando a proporcionar, da forma mais didática possível, tendo em vista o nosso público-alvo, o máximo de informações sobre a prevenção e sintomas da Covid-19 e também promover o uso do cartão de transporte em vez do dinheiro, também como meio de prevenção, bem como a compra de créditos por meio de Apps no lugar de deslocamentos às lojas ou estabelecimentos comercias, à semelhança do que muitas cidades ao redor do mundo estão fazendo (conforme relatório da UITP – MANAGEMENT OF VIRUS OUTBREAKS IN PUBLIC TRANSPORT: CASE STUDIES AND PRACTICES AGAINST COVID-19 AND ADDITIONAL REFERENCES – LATEST UPDATES (18/03/2020)

Portanto, neste fim semana, tomei tempo para escrever sobre o tema, e o faço após falar com vários especialistas em transportes que concordam com minha tese de que, durante o período de contenção do coronavírus, INTENSIFICAR o transporte público é a melhor solução, nunca restringi-lo ou interrompê-lo.

Os motivos óbvios da não interrupção é que mais de 80% das pessoas no Brasil dependem do transporte público para se locomoverem na cidade. Como os profissionais da saúde chegarão aos hospitais se o transporte público estiver interrompido? Como os pacientes irão se tratar se não tiver transporte público para levá-los ao hospital ou posto de saúde?

Se não tiver transporte coletivo, como o trabalhador chegará à fábrica para produzir álcool em gel, máscaras, termômetros, respiradores, abastecimento de alimentos, etc.? Lembrando que nem todo trabalho dá para se fazer de casa e nem todos têm carro particular para se locomover.

Infelizmente alguns gestores públicos, por não entenderem de mobilidade urbana e serem pressionados muitas vezes por profissionais de comunicação, que também não conhecem de transporte de pessoas, confundem o “evitar aglomeração” e “contato próximo com pessoas” com “transporte coletivo” e radicalizam com medidas de restrição ao transporte público, quando a solução está justamente ao contrário.

Também não precisa ser engenheiro de transporte para saber que um ônibus ou terminal fica lotado de pessoas quando há mais demanda do que oferta! Mas se houver mais oferta do que demanda — por causa da quarentena e muitos trabalhando em home office —, não haverá aglomeração. Com uma oferta de transporte público mantida ou intensificada, teremos menos pessoas em cada ônibus e, consequentemente, também nos terminais; portanto, a intensificação do transporte público é a melhor solução em tempos de crise.

No estudo da UITP que citei acima, nenhuma das cidades dos 27 países analisados interrompeu o transporte coletivo por causa do coronavírus, somente Milão, e por 2 dias apenas.

Um exemplo positivo a ser seguido é o do Governo do Estado de São Paulo, que, por meio da STM – Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo e da Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes da cidade de São Paulo, anunciou nesta semana um conjunto de medidas, em que  a de número 3* diz que os serviços de transporte em toda a Região Metropolitana de São Paulo serão disponibilizados na sua capacidade máxima, justamente para evitar aglomeração:

*3) Para evitar a aglomeração de pessoas nos transportes coletivos, os trens e ônibus das regiões metropolitanas do Estado de São Paulo e da cidade de São Paulo serão disponibilizados na sua capacidade máxima.

Com uma oferta maior que a demanda, é evidente que a conta não irá fechar, mas conversando com alguns Secretários de Mobilidade, nesta hora é que os governos terão que entrar e fazer a sua parte, pagando esta conta. E há múltiplas formas de fazê-lo: isentando impostos, mudando a fórmula de remuneração de “tarifa” para “km rodado”, implementado subsídios que não havia, etc.

Portanto, em tempos de prevenção ao coronavírus, no tocante à Mobilidade Urbana, o certo é manter e intensificar Transporte Coletivo, mas nunca restringi-lo.

Termino com as palavras do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta em entrevista coletiva nesta tarde de domingo, 22 de março de 2020, segundo mostrou o Diário do Transporte: “Não se deve pensar nas próximas eleições, mas nas próximas gerações… É muito fácil dar ordem de parar, difícil é fazer reativar.”

Artigo publicado no Diário do Transporte no dia 22 de março de 2020.

Matéria publicada na Revista NTUrbano Ed. 43 Janeiro/Fevereiro 2020.

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