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Ônibus elétricos: realidade ou ficção científica?

22/04/2019 | Artigo

Por André Dantas*

A adoção do ônibus elétrico no contexto do transporte público urbano no Brasil é complexa e tem implicações múltiplas. A complexidade decorre da existência de muitas dúvidas sobre a sustentabilidade tecnológica, econômica e operacional. Essas dúvidas recaem principalmente sobre os veículos elétricos dotados de baterias, pois mundialmente pouco se sabe sobre a durabilidade, a confiabilidade e os custos ao longo de toda a vida desses veículos.

Especificamente em relação aos veículos elétricos a bateria, pode-se destacar os seguintes fatos[1] sobre a tecnologia:

    - A maioria dos fabricantes de veículos elétricos indica que as baterias de LFP (íon lítio) têm vida útil de 30 anos.
    - Estudos científicos sobre a eficiência dos veículos elétricos apontam que a vida útil varia entre 5 e 10 anos.
    - A troca das células de baterias é necessária, porque há perdas periódicas ao longo do período de operação.
    - Os custos para aquisição dos veículos e substituição das baterias ainda superam em 29% os custos operacionais e os benefícios ambientais provenientes da propulsão elétrica.
    - O custo médio na Europa para implantação dos equipamentos de recargas realizadas nas garagens pode variar de € 5.000 a € 26.000/veículo. Já para as recargas ao longo da rota, o custo varia entre € 90.000 a € 225.000/unidade.
    - Os testes realizados no Brasil indicam que o consumo médio de energia dos ônibus elétricos varia entre 1,04 e 1,59 KWh/km. O custo com manutenção é estimado entre R$ 0,2 e 0,9/km. O preço de aquisição dos veículos pode ser em média 2,17 vezes mais caro que os veículos movidos a diesel. Os custos com energia e manutenção podem ser em média 55% e 50% menores, respectivamente.
   - Considerando todo o processo de produção e ciclo de vida dos veículos, a média de emissão dos veículos a diesel (vida total) é de 1,1 a 1,6 g CO2/km e 1,35 a 1,4g CO2/km para veículos elétricos.
    - Quando os veículos elétricos são recarregados, a eletricidade necessária é produzida por uma ampla gama de diferentes usinas de energia (termelétrica, hidrelétrica, eólica, nuclear, gás, carvão, etc.), que também podem ser fontes de poluição do ar.

Essa lista permite concluir que os fatores críticos, relacionados à adoção do ônibus elétrico a bateria, devem ser aprofundados e analisados de forma sistêmica. Essa abordagem contribuiria para ultrapassar os posicionamentos dualistas, que são frequentemente observados: a favor ou contra a modernidade em prol do ambiente. O favorável está ligado à percepção de que o ônibus elétrico representa o avanço tecnológico, que permite o uso da energia limpa e de fonte renovável, e o conforto. Esse posicionamento tem grande apelo junto àqueles que vislumbram na mudança tecnológica a solução para muitos dos nossos problemas urbanos.

Precisamos ser realistas. Se realmente existir o ímpeto de adotar extensivamente o ônibus elétrico, seria necessário discutir a disponibilidade de energia elétrica e da infraestrutura de distribuição dedicada, e o aumento dos custos e tarifas. Ademais, o debate sobre tecnologia deveria ser incluído nas temáticas fundamentais de planejamento, financiamento e priorização viária do transporte público por ônibus.

 

André Dantas* é PhD, Diretor Técnico da NTU



[1] NTU (2018) Veículos elétricos: estamos preparados?; Nota Técnica NDT-4.12/2018; 26 páginas; Brasília, Brasil.

 

Artigo publicado na edição 37, Jan./Fev., da Revista NTUrbano.