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Cinco pessoas por hora

14/08/2019 | Geral

Esse é o número de vítimas fatais do trânsito no Brasil. No Maio Amarelo, especialistas falam sobre as principais medidas que devem ser adotadas para reduzir esse número trágico

Todo ano mais de 1,35 milhão de pessoas morre em acidentes de trânsito no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O número de feridos varia entre 30 e 50 milhões de pessoas. E, infelizmente, esse índice tende a piorar no futuro — os acidentes de trânsito podem se tornar a quinta principal causa de mortes em todo o mundo até 2030.

Nos dias atuais, mais pessoas morrem no trânsito do que pelo vírus HIV/AIDS, tuberculose ou por doenças diarreicas. Os acidentes nas vias são a oitava principal causa de morte em todas as faixas etárias e o principal motivo de morte de crianças e jovens entre 5 e 29 anos em todo o mundo.

O Brasil é o quinto país que mais mata no trânsito, segundo a OMS, perdendo apenas para a Índia, China, Estados Unidos e Rússia. Só nos últimos vinte anos morreram mais de 662 mil pessoas em acidentes no trânsito brasileiro. Segundo dados do Conselho Federal de Medicina, os acidentes de trânsito matam, a cada hora, cinco pessoas e vinte vão para o hospital.

Foi pensando em como diminuir esses altos números que, em 2011, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou a “Década de Ação pela Segurança no Trânsito 2011-2020”. O objetivo era comprometer governos do mundo todo a adotar medidas para prevenir os acidentes no trânsito.

Diversas metas foram definidas e, a princípio, o plano pretendia reduzir pela metade o número de mortos e feridos no trânsito em todo o mundo até 2020. Mas, a pouco mais de um ano do prazo limite, os números não são tão positivos como se esperava. No último levantamento feito pela OMS, em 2016, o trânsito brasileiro fez 37.345 mil vítimas. Para cumprir a meta acordada com a ONU, o Brasil terá que reduzir esse número para 19 mil até 2020, um desafio considerável.

Transporte público: aliado do trânsito seguro

Além de medidas para acabar com os principais motivos da falta de segurança no trânsito — excesso de velocidade, consumo de álcool, uso do celular e o não uso de equipamentos de segurança como o capacete, cadeirinhas para crianças e cinto de segurança —, a nova agenda global de desenvolvimento sustentável firmada há quatro pela ONU com todos os países prevê uma meta adicional para 2030: proporcionar acesso a sistemas de transporte público seguros, sustentáveis e a preços acessíveis para todos, contribuindo assim para melhor a segurança no trânsito. A meta inclui dar atenção especial às necessidades de grupos vulneráveis como mulheres, crianças, pessoas com deficiências e idosos.

A ONU defende que as cidades atuais precisam ser redesenhadas para dar espaço às chamadas cidades do futuro, que serão mais resilientes, seguras e sustentáveis. É por essa razão que a mobilidade urbana é um dos pontos fundamentais dentro dessa nova agenda urbana da Organização, focada na proteção da saúde dos usuários e do meio ambiente, além de contribuir positivamente para a economia.

Segundo dados do Ministério da Saúde, o ônibus é o transporte terrestre mais seguro que existe, com menor índice de mortes no trânsito. Um terço da população se locomove por ônibus, mas apenas uma em cada 200 mortes no trânsito ocorre com algum passageiro do modal — ou seja, 0,48% do total. Importante observar que boa parte desses casos estão relacionados a ônibus rodoviários, já que as estatísticas não fazem distinção entre ônibus rodoviários e urbanos — nas cidades, o índice é provavelmente ainda menor.

Para o diretor Administrativo e Institucional da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Marcos Bicalho¸ a explicação é clara: a velocidade em que os ônibus trafegam e as medidas de prioridade para ônibus fazem toda a diferença. “Todas as pesquisas mostram que o ônibus é o meio de transporte mais seguro que existe, e a velocidade reduzida dos ônibus é a principal razão pela baixa taxa de mortes no trânsito. Além disso, as medidas de prioridade, como as faixas exclusivas, organizam o trânsito e evitam acidentes”, conta.

O diretor da NTU também comentou sobre as ações que a entidade desenvolve perante o poder público para expandir as medidas que priorizam o transporte e que buscam melhorar o trânsito no Brasil. “Nós sempre buscamos incentivar o desenvolvimento sustentável por meio do transporte público, em especial, os ônibus. Recentemente, a NTU e outras entidades, como a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Públicos de Mobilidade Urbana e a Frente Nacional de Prefeitos (FNP), lançaram um documento chamado Construindo hoje o amanhã – propostas para o transporte público no Brasil, que busca soluções para melhorar a mobilidade urbana no Brasil, entre elas a expansão das medidas de prioridade para os serviços de ônibus”, disse.

Além da NTU, outras entidades da sociedade civil, especialistas e governos também estão pensando o melhor para o futuro do trânsito e das nossas cidades. Em 2015, o World Resources Institute (WRI) Brasil lançou o manual "Segurança Viária em Sistemas Prioritários para Ônibus", um amplo documento que fornece recomendações detalhadas para incorporar a segurança no projeto, planejamento e operação de diferentes sistemas de ônibus. Essas recomendações foram baseadas em análises de dados de acidentes e auditorias e inspeções de segurança viária de mais de 30 sistemas de ônibus existentes ao redor do mundo. O manual cobre uma ampla gama de tipos de priorização, desde faixas prioritárias para ônibus junto ao meio-fio até sistemas BRT de alta capacidade, múltiplas faixas e em corredor central.

Segundo a especialista em Segurança Viária do WRI Brasil, Marta Obelheiro, o Brasil ainda precisa avançar nos investimentos de priorização do transporte coletivo. “O transporte coletivo é o modo mais seguro de transporte em uma cidade. Mas é preciso que o acesso a esse modo de transporte também seja seguro. A pesquisa do WRI (Segurança Viária em Sistemas Prioritários para Ônibus) mostrou que a maior parte das mortes em vias com corredores de ônibus geralmente é de pedestres, e que grande parte dos acidentes ocorre fora das faixas de ônibus. Ou seja, melhorar a segurança em vias com corredores de ônibus é fundamentalmente uma questão de melhorar a segurança para os pedestres. É preciso dar aos usuários da via um ambiente viário compatível com suas habilidades e fragilidades, e que, portanto, inclua elementos de infraestrutura que beneficiem a segurança de todos”.

Por outro lado, melhorar a qualidade do transporte coletivo também é fundamental para evitar que os usuários do sistema migrem para outros modos de transporte mais inseguros e menos sustentáveis, segundo Marta Obelheiro. “Já há alguns anos, a motocicleta vem atraindo usuários do transporte coletivo. Entretanto, a motocicleta é o modo de transporte mais inseguro, com um risco muito maior de morte e de ferimentos no trânsito para seus usuários. Hoje, os motociclistas são os que mais morrem no trânsito brasileiro. Investir na qualidade do transporte coletivo é a chave para manter a viabilidade do sistema e evitar mais mortes no trânsito”, afirmou.

Uma das cidades brasileiras que está investindo em segurança viária e priorizando o transporte público por ônibus é São Paulo. Após analisar os altos índices de morte no trânsito, a prefeitura da capital paulista decidiu publicar um plano de segurança viária próprio. O objetivo é fazer com que o índice de mortes no trânsito tenha valor igual ou inferior a 3 a cada 100 mil habitantes até 2028, considerando todos os tipos de ocorrência, com todos os veículos. Em relação aos ônibus, a meta é de redução de 50% no número de mortes decorrentes de acidentes, também até 2028. Até 2020, é esperada uma redução de 10% e, em 2024, uma queda de 30% nas mortes de trânsito que estejam relacionadas a ônibus.

Para Marta Obelheiro, essa é a abordagem adequada para que os acidentes nas vias sejam reduzidos drasticamente. “Um bom exemplo é o adotado pela cidade de São Paulo, que limitou a velocidade dos ônibus em 50 km/h em 100% da frota. Há um dispositivo no veículo que corta a aceleração quando a velocidade limite é atingida. Esse é um exemplo de medida alinhada com a abordagem de sistema seguro para a segurança viária. Em primeiro lugar, porque resolve um dos principais fatores de risco para as mortes no trânsito: o excesso de velocidade. Ao limitar a velocidade, a gravidade dos acidentes que porventura venham a ocorrer é menor. Em segundo lugar, porque é representativa de uma postura de responsabilidade compartilhada pela segurança no trânsito. Em vez de apenas esperar que o condutor tenha o comportamento ideal e não cometa erros no trânsito, a cidade adotou uma medida proativa para reduzir a gravidade dos acidentes. Esse é o tipo de abordagem que vem sendo adotada pelas cidades e países que mais reduziram as mortes no trânsito nos últimos anos”, explica.

Custos altos

Além das perdas irreparáveis, essa triste realidade traz graves prejuízos financeiros. No Brasil, o montante anual gasto com acidentes de trânsito atingiu R$ 52 bilhões em 2014, segundo levantamento feito pelo Observatório Nacional de Segurança Viária. O valor foi destinado aos gastos com atendimento médico, infraestrutura de bombeiros e custos previdenciários das pessoas que ficaram impossibilitadas de trabalhar.

O diretor-presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), José Aurélio Ramalho, comenta sobre os prejuízos financeiros que o país tem com os registros de violência nas vias. “Cada brasileiro gasta R$ 255,00 ao ano com acidentes de trânsito. Esse custo significa o quanto cada cidadão desembolsou durante todo o ano, uma vez que os gastos com os acidentes de trânsito (hospitais, médicos, infraestrutura, medicamentos, pronto-atendimento, entre outros) são pagos por meio de impostos. Consequentemente, esse recurso deixou de ser investido em melhorias como saúde, educação e saneamento básico, que poderiam ter sido feitas pelos respectivos governos, mas que não aconteceram por causa dos acidentes de trânsito que poderiam ter sido evitados”, conta.

Ramalho disse ainda que os gastos se estendem aos que ficam com alguma sequela e precisam de tratamento em hospitais, o que também impacta a economia. “Mais que números e dados estatísticos, aqueles que se acidentam no trânsito e sobrevivem vão carregar sequelas pelo resto da vida. Em 2017, mais de 180 mil pessoas foram internadas nos hospitais brasileiros, refletindo num custo social de mais de R$ 260 milhões’’, comenta.

Nos Estados do Piauí e Tocantins os números são ainda mais elevados. Eles lideram o ranking de custo associado a acidentes de trânsito, com gastos que chegam perto de R$ 500,00 por pessoa, quase o dobro da média brasileira. Nas demais regiões, os Estados com maior gasto per capita são Mato Grosso do Sul, na Região Centro-Oeste; Espírito Santo, no Sudeste; e Paraná, na Região Sul.

Campanha educacional

Para o especialista em transporte público, Wesley Cândido de Melo, além dos investimentos em prioridade e infraestrutura, os governos deveriam investir em educação. “Hoje é necessário investirmos cada vez mais em mobilidade urbana. Quando investimos nessa área, tiramos os carros das vias. O investimento em transporte público atrai quem se desloca por meio do transporte individual, assim diminuímos a quantidade de veículos que circulam nas vias, o que impacta positivamente na segurança viária: quanto menos carros, mais seguro é o trânsito. Além disso, há uma grande necessidade de investir em educação de trânsito, desde as crianças, para que daqui a alguns anos a gente tenha essas concepções mais fortes na população”, conclui.

A necessidade de investir em educação desde cedo, instruindo especialmente os mais jovens, está refletida no pensamento das entidades que buscam a melhoria do transporte público. Assim como o papel das crianças na conscientização dos adultos. A campanha do Maio Amarelo realizada este ano, sob a liderança do Observatório Nacional de Segurança Viária, teve como protagonistas crianças e jovens alertando os adultos para os riscos de uma direção descuidada e dos abusos no trânsito. A campanha, intitulada “Me ouça”, foi apoiada pela NTU e pelas suas quase 600 empresas associadas e entidades filiadas. A NTU inclusive reforçou seu compromisso com a segurança viária ao se tornar este ano uma “Entidade Laço Amarelo”, selo de engajamento conferido pelo ONSV.

Maio Amarelo

O Maio Amarelo é um movimento internacional que surgiu com a proposta de chamar a atenção da sociedade para o alto índice de mortes e feridos no trânsito em todo o mundo. O objetivo do movimento é uma ação coordenada entre o Poder Público e a sociedade civil. O mês foi escolhido porque foi em maio de 2011 que a ONU decretou a Década de Ação para Segurança no Trânsito. Desde então, maio se tornou referência mundial para ações e campanhas educativas realizadas em todo o mundo. A cor amarela faz referência à “atenção” que o trânsito exige de seus usuários todos os dias.       

Matéria publicada na Revista NTUrbano Ed. 39 Maio/Junho de 2019