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Aplicativos ameaçam o transporte coletivo

03/10/2018 | Artigo

Pesquisa de opinião realizada pelo Ideia Big Data e encomendada pelo Instituto Escolhas e Instituto Clima e Sociedade, em novembro de 2017, identificou uma tendência do brasileiro de trocar o transporte público pelos aplicativos de transporte ao ouvir 3.000 pessoas de todas as regiões do País.

Na amostra, aplicativos como Uber e Cabify obtiveram 81% de aprovação; 32% dos entrevistados disseram utilizá-los com uma frequência igual ou maior do que duas vezes na semana. Esse número é bastante significativo se considerarmos que esses aplicativos não operam em todas as cidades brasileiras.

Perguntados sobre qual meio de transporte utilizavam antes de usar os aplicativos, 49% dos entrevistados disseram que deixaram de usar o transporte público, 37% afirmaram deixar de usar o táxi e 24% o próprio carro. Essa substituição do transporte público pelo serviço por aplicativo aconteceu mais entre as mulheres (54%) e entre os jovens (58%).

A troca precisa ser vista com mais atenção, não só por conta do aumento do trânsito e da poluição, como pela perda de receita do transporte público. A queda do número de passageiros leva também a uma queda de arrecadação e pode complicar ainda mais a já delicada situação financeira do setor, prejudicando a parcela da população de mais baixa renda, que só pode contar com o ônibus e o trem nos seus deslocamentos.

Essa não é uma tendência só no Brasil; diversos centros de pesquisa e governos em outras partes do mundo estão analisando o fenômeno. Um estudo recente da Universidade da Califórnia identificou que entre 49% e 61% das viagens pelo serviço de aplicativos poderiam ser feitas a pé, de bicicleta ou por transporte público coletivo.

Outro levantamento, que está sendo realizado por uma agência estatal da cidade de São Francisco, nos EUA, já constatou aumento de deslocamentos por aplicativos e queda dos deslocamentos por transporte público no aeroporto local. As cidades de Nova York e Chicago alegam que a queda do número de passageiros do metrô e ônibus está associada à migração para os aplicativos. Nova York possui um dos poucos metrôs do mundo que se paga com a própria tarifa, por conta do alto número de passageiros — sustentabilidade que está sendo ameaçada.

No Brasil, a péssima qualidade do transporte público, aliada aos preços mais em conta dos aplicativos se comparados com os do tradicional táxi, pode explicar essa mudança. Em um momento de grave crise econômica para o País, o problema vai exigir mais recursos públicos para bancar o funcionamento do sistema. O uso dos aplicativos pode até fazer a felicidade de quem pode pagar por ele, mas pode piorar ainda mais a situação do sistema de transporte público de nossas cidades.

É urgente pensarmos formas de impedir que os aplicativos sejam uma ameaça para o transporte público. Um obstáculo é a falta de abertura dos dados por parte das empresas, que só pode ser resolvido por meio de regulação por parte do poder público. Nesse sentido, o problema dos aplicativos deixa de ser só com os táxis e passa a ser uma questão para governos e sociedade como um todo.

JAQUELINE FERREIRA é doutora em Ciências Sociais pela UFRRJ e coordenadora Institucional do Instituto Escolhas

SERGIO LEITÃO é advogado, fundador e diretor executivo do Instituto Escolhas

 

*Artigo publicado na Revista NTUrbano, na edição julho/agosto de 2018.

 

Tópicos
transporte público - mobilidade urbana
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